sábado, 11 de julho de 2009

A titilante de Cnido



A estátua chamada Afrodite de Cnido foi esculpida por Praxíteles em 340 a.C., tendo sido destinada ao templo de Afrodite em Cnido. Para Plínio-o-Velho era a mais perfeita escultura dum ser feminino nu, mulher ou deusa. Segundo vários autores antigos, entre os quais Filóstrato e Valério Máximo, bem como Plínio, a estátua foi mesmo alvo de um bizarro ataque amoroso por parte de um homem enfeitiçado pela sua beleza e verosimilhança.


Esta obra de arte está hoje perdida, mas a sua iconografia foi recuperada no séc. XVIII a partir de moedas encontradas em Cnido. A Venus Colonna, que vemos na imagem, esculpida na Antiguidade romana do período imperial, é considerada a cópia mais próxima do original.


Já na Antiguidade os Padres da Igreja usavam esta obra de arte como móbil para a destruição dos ídolos pagãos. O mimo titilante da figura iria ser usado para dar uma conotação sexual a todas as representações de Vénus - e em geral a todas as representações antropomórficas - que seriam então consideradas imagens pagãs a destruir.


Na Alta Idade Média, contava-se uma lenda acerca dos poderes demoníacos das estátuas de Afrodite e de Vénus. Dizia-se que um jovem colocara um anel de casamento num dos dedos da estátua para o guardar por breves instantes e, por causa disso, na sua noite de núpcias, Vénus teria aparecido e impedido que o casamento se consumasse, já que o nubente havia colocado o anel no dedo de Vénus e não no da sua amada mortal. Foi mesmo preciso fazer um exorcismo para que o feitiço se quebrasse e o casamento pudesse ser finalmente consumado.


Mais tarde, Gautier de Coincy, um abade francês do séc. XII-XIII, substituiria a estátua de Vénus por uma Virgem Maria, transformando o jovem esposo ansioso pela consumação do casamento num celibatário vitalício. Mais recentemente, Renoir, Dali e Paul Klee haveriam de retomar o tema da Afrodite de Cnido, cada um a seu estilo, e parece até que a sua recepção artísitica - da Afrodite de Cnido - só não foi maior porque durante muito tempo se desconheceu a sua existência física. Hoje podemos contemplá-la de novo, ainda que em cópia aproximada.
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3 comentários:

  1. Fiquei pensando em como a Vênus inspirou e ainda inspira os poetas. Embora, neste post, vc não esteja falando sobre a Vênus de Milo, acho que, ainda assim, posso fazer duas menções poéticas a ela. Primeiro, resgatando um grande prosador brasileiro: Machado de Assis. Acho lindo qdo, no conto "Vênus! Divina Vênus!", ele diz: "Os braços que te faltam são os braços dela!", fazendo uma comparação entre a amada de carne e osso e a estátua da Vênus de Milo. A segunda menção é ao grande poeta português (meu predileto, dentre todos, sem sombra de dúvida!) Fernando Pessoa, qdo diz: "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso." Enfim, a beleza e o encantamento da Vênus é mesmo o superlativo da beleza, seja de que natureza for a beleza que se canta...

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  2. É certo que a deusa grega do amor, que teve um nascimento como se sabe inusitado, como conta Hesíodo, não podia deixar de inspirar poetas e pintores. Talvez porque a pulsão amorosa seja uma constante universal do humano. No entanto, a comparação de Pessoa - entre o binómio de Newton e a Vénus de Milo - não deixa de ser esperada no poeta dos heterónimos. Só o cerebral Pessoa poderia encontrar uma equivalência de beleza entre uma abstracção matemática e uma representação feminina...

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  3. ... são de natureza diferentes, como bem observaste...

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