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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo na Grécia antiga


Cratera de Pesto, 360-340 a.C.

Cena da comédia grega com o deus grego Dioniso e um ator balançando com um cesto na cabeça.
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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Martin Gardiner Bernal


10 de março de 1937 - 9 de junho de 2013


«The publication of Volume I of Black Athena transformed my life.»

Black Athena, II, xvi


domingo, 27 de novembro de 2011

Paraíso dos manuscritos gregos

Harley MS 5744,
início da Vida de Sófocles

Digitised Manuscripts da British Library: imagens de manuscritos em grego publicadas pela British Library. Projecto desenvolvido a partir do Greek Manuscripts Digitisation Project, fundado pela Stavros Niarchos Foundation.

"The 250 manuscripts initially selected for this project were chosen because they offered a good range of different types of Greek manuscript and included some notable highlights of the British Library's collection. These manuscripts, all from the Additional Manuscripts collection, were also at the time amongst the least accessible since they had not yet been catalogued to modern standards." Aqui.
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sábado, 15 de outubro de 2011

Justiça

Themis
Antiken-sammlung, Berlin, Germany 

"Existe ainda uma virgem, a Justiça, nascida de Zeus,
gloriosa e respeitada pelos deuses que habitam o Olimpo,
e quando alguém a ofende, insultando-a de modo iníquo,
de imediato, sentada junto de Zeus pai, filho de Cronos,
denuncia o espírito dos homens injustos, para que pague
o povo as loucuras dos reis que, maquinando enganos,
para outro lado desviam as sentenças, com tortuosas palavras.
Tendo isto em mente, proferi palavras rectas, ó reis,
devoradores de presentes, e esquecei de vez as tortas sentenças.
Para si prepara desgraças o homem que para outro as prepara,
E uma má decisão é péssima para quem a concebe."

Em grego arcaico:

ἡ δέ τε παρθένος ἐστὶ Δίκη, Διὸς ἐκγεγαυῖα, 
κυδρή τ᾽ αἰδοίη τε θεῶν, οἳ Ὄλυμπον ἔχουσιν. 
καί ῥ᾽ ὁπότ᾽ ἄν τίς μιν βλάπτῃ σκολιῶς ὀνοτάζων, 
αὐτίκα πὰρ Διὶ πατρὶ καθεζομένη Κρονίωνι
γηρύετ᾽ ἀνθρώπων ἄδικον νόον, ὄφρ᾽ ἀποτίσῃ 
δῆμος ἀτασθαλίας βασιλέων, οἳ λυγρὰ νοεῦντες 
ἄλλῃ παρκλίνωσι δίκας σκολιῶς ἐνέποντες. 
ταῦτα φυλασσόμενοι, βασιλῆς, ἰθύνετε †δίκας 
δωροφάγοι, σκολιέων δὲ δικέων ἐπὶ πάγχυ λάθεσθε.
οἷ γ᾽ αὐτῷ κακὰ τεύχει ἀνὴρ ἄλλῳ κακὰ τεύχων, 
ἡ δὲ κακὴ βουλὴ τῷ βουλεύσαντι κακίστη.

Tradução de José Ribeiro Ferreira
in HESÍODO, Teogonia, Trabalhos e Dias, Lisboa: INCM, 2005.
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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pleiades database


Informação histórico-geográfica do período greco-romano. "Pleiades gives scholars, students, and enthusiasts worldwide the ability to use, create, and share historical geographic information about the Greek and Roman World in digital form." Aqui.
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Liddell-Scott on-line


The TLG is pleased to announce the release of the Online Liddell-Scott Jones, the premier lexicon for ancient Greek. All lemmata and word forms in the TLG corpus are now linked to a new dictionary page that contains links to LSJ. The lexicon is open to the public. Here.
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Utopias

Tucídides

“Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio às actividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses, decidimos  as questões públicas por nós mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-las claramente, na crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação.”

Em grego clássico:

"φιλοκαλοῦμέν τε γὰρ μετ᾽ εὐτελείας καὶ φιλοσοφοῦμεν ἄνευ μαλακίας: πλούτῳ τε ἔργου μᾶλλον καιρῷ ἢ λόγου κόμπῳ χρώμεθα, καὶ τὸ πένεσθαι οὐχ ὁμολογεῖν τινὶ αἰσχρόν, ἀλλὰ μὴ διαφεύγειν ἔργῳ αἴσχιον. [2] ἔνι τε τοῖς αὐτοῖς οἰκείων ἅμα καὶ πολιτικῶν ἐπιμέλεια, καὶ ἑτέροις πρὸς ἔργα τετραμμένοις τὰ πολιτικὰ μὴ ἐνδεῶς γνῶναι: μόνοι γὰρ τόν τε μηδὲν τῶνδε μετέχοντα οὐκ ἀπράγμονα, ἀλλ᾽ ἀχρεῖον νομίζομεν, καὶ οἱ αὐτοὶ ἤτοι κρίνομέν γε ἢ ἐνθυμούμεθα ὀρθῶς τὰ πράγματα, οὐ τοὺς λόγους τοῖς ἔργοις βλάβην ἡγούμενοι, ἀλλὰ μὴ προδιδαχθῆναι μᾶλλον λόγῳ πρότερον ἢ ἐπὶ ἃ δεῖ ἔργῳ ἐλθεῖν."

Para que não haja dúvida, trata-se do Péricles de Tucídides sobre a Atenas de há dois mil e quinhentos anos, não é coisa de agora.

N. b.: Texto em português da tradução de Mário da Gama Cury (São Paulo, 1982), a primeira tradução integral para português, directamente do grego clássico, da colossal obra de Tucídides. Surge agora e em boa hora a segunda integral pelas mãos de M. Gabriela P. Granwehr e Raul Rosado Fernandes (Lisboa, 2010).
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sábado, 13 de novembro de 2010

Ad hoc tempus

Clio, Musa da História,
Carlo Franzoni, mármore, 1819,
National Statuary Hall, Washington

“Vá lá, então, comecemos pelas Musas, aquelas que a Zeus, seu pai, / entoam hinos, alegrando-lhes o espírito imenso, na mansão do Olimpo, /contando-lhe o presente, o futuro e o passado, / em uníssono. Um canto inesgotável escorre-lhes / dos lábios, delicioso. E ilumina-se com um sorriso a morada do pai, / Zeus, senhor do trovão, enquanto a voz cândida das deusas / se eleva, fazendo vibrar o cimo do Olimpo coberto de neve / e as moradas dos Imortais.”

As nove Musas da mitologia grega – Calíope, Clio, Polímnia, Euterpe, Terpsícore, Érato, Melpómene, Talia e Urânia – são  filhas de nove noites de amor de Zeus com Mnemósine, a deusa grega cujo nome significa “Memória”. Filhas da memória, representam também a primazia da Música sobre todas as coisas.

Cf. HESÍODO, Teogonia, Trabalhos e Dias, trad. A. E. Pinheiro e J. R. Ferreira, Lisboa: INCM, 2005.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nihil ebrium

Taça de Nestor
Pitecusas, séc. VIII a.C.

Inscrição na “taça de Nestor”

“De Nestor sou a taça aprazível de beber
Aquele que beber esta taça vazia imediatamente
Um desejo de Afrodite de bela coroa (o) tomará”

A inscrição, uma das mais antigas com caracteres gregos (de influência fenícia), data do séc. VIII a.C. Escrita da direita para a esquerda, à maneira hebraica, foi encontrada num objecto conhecido como a “taça de Nestor”, em Pitecusas (ilha de Ischia, frente a Nápoles). Foi já proposta a associação (não identitária) com a taça de Nestor mencionada na Ilíada (XI, 632-637), o que pode ter resultado de referência literária ou de mera recolecção mitológica a partir de um substrato comum. Na Ilíada, “uma mulher semelhante às deusas” mistura vinho de Pramo e queijo ralado na taça de Nestor, após o que este conta uma longa história a Pátroclo. Mas aquele que beber da taça encontrada em Pitecusas, quando ela estiver vazia, será tomado pelo louco desejo de Afrodite. É pois um estranhíssimo caso em que uma taça vazia inebria mais do que uma cheia de vinho.

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sábado, 30 de janeiro de 2010

De Homero a Saramago



A “questão homérica”, assim chamada, não porque haja evidência de que Homero a tenha formulado, mas porque se refere à autoria dos seus textos, desenvolveu-se notavelmente no século XIX d.C., acompanhando um movimento crítico que então versava sobre o texto bíblico. Porém, já na Antiguidade esta questão fora colocada em termos críticos.

Cícero, que viveu entre os anos 106 e 43 a.C., sugeriu que os textos homéricos então conhecidos fossem uma revisão que Pisístrato fizera à obra de Homero. Por seu turno, Josefo, um historiador judeu do séc. I d.C., aventou a hipótese de Homero não saber escrever, o que foi já entendido como uma tentativa de demonstrar a superioridade da cultura hebraica em relação à cultura grega antiga, já que os Hebreus  teriam conhecido a escrita antes dos Gregos. 

Quiçá mais hispidamente, no séc. XVII d.C. François Hédelin, Abade de Aubignac e de Meimac, insurgiu-se contra a Ilíada e a Odisseia, qualificando-as de pobres na caracterização, com fracos argumentos e ética e teologicamente desprezíveis, chegando mesmo ao ponto de afirmar que Homero nunca existiu; os seus textos seriam apenas colecções de rapsódias da autoria de outros. E nem só em França se pensava assim; Giambattista Vico, autor da famosa Scienza Nuova (publicada em 1725), também estava convicto que Homero nunca existira e que os poemas “homéricos” eram criações de todo um povo.

No séc. XIX d.C., as opiniões dos Analistas tinham larga aceitação, assentando na tese de que as obras de Homero eram uma combinação de poemas e fragmentos anteriores; o trabalho a fazer estaria na descoberta desses ingredientes de base. No início do séc. XX d.C., argumentando que a Ilíada e a Odisseia tinham uma tal excelência de estrutura, assim como consistência na criação de caracteres, os Unitaristas defendiam que as obras homéricas não poderiam ter resultado do trabalho de muitos, teriam apenas um autor.

A descoberta de Milman Parry, na segunda década do séc. XX, viria a revelar-se esclarecedora da dita “questão homérica”. A tese central era esta: as características distintivas da poesia homérica deviam-se a uma economia de palavras dirigida por métodos de composição oral. Os estudos de Milman Parry e dos seus discípulos viriam a revelar as diversas fórmulas presentes na Ilíada e na Odisseia. Homero, mais do que um criador, reunira linhas que pertenciam à oralidade do seu tempo. Helena e Páris – pintados na figura acima por Jacques-Louis David em 1788 – não eram criações ex novo de Homero.

Cantadas séculos antes de Homero, as obras homéricas não foram criadas na primeira metade do séc. VIII a.C, nesse período apenas passaram a escrito. Pode imaginar-se o nível de cultura oral pré-homérica a partir dos seus textos,  já que, nas culturas predominantemente não escritas, o conhecimento uma vez adquirido tinha de ser frequentemente repetido para que não se perdesse; daí a importância do pensamento formulaico.

A primitiva poesia escrita era assim uma mimese escrita duma performance oral. Parece até que este fenómeno literário ainda hoje persiste: o autor sírio-otomano Kahlil Gibran, nascido em Bsharri, no actual Líbano, e falecido em Nova Iorque em 1931,  parece ter-se dedicado a pôr por escrito elementos formulaicos que os americanos do Norte consideravam invulgares, mas que para os libaneses eram lugares-comuns.

E mesmo entre nós, falantes e pensantes em língua portuguesa, quando dizem que José Saramago tem uma maneira assim “esquisita” de pontuar os seus textos, o autor diz que é preciso lê-los em voz alta; ou seja, fazer o processo inverso daquele que Homero terá feito quando escreveu as suas obras. Já dizia Saussure que a escrita é apenas a forma visível da linguagem falada.

Cf. ONG, Walter J., Orality and Literacy, London and New York: Routledge, 1982.
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domingo, 22 de novembro de 2009

De Hermes à oratória




“Musa, canta um hino a Hermes, filho de Zeus e de Maia,
senhor de Cilene e da Arcádia rica em rebanhos,
mensageiro dos imortais que traz a sorte, ele que Maia criou,
a ninfa de belos cabelos que por amor se uniu a Zeus, recatada:
pois ela evitou a companhia dos deuses bem-aventurados,
vivendo dentro de uma caverna sombria…”


Começa assim o Hino Homérico a Hermes, deus nascido numa caverna situada no monte Cilene, no Sul da Arcádia, ao que parece no quarto dia do mês, de um mês que talvez nunca tenha existido. O nome deste deus grego aparece desde cedo escrito em tabuínhas de Linear B, uma escrita usada pelos falantes de uma língua proto-grega. Parece que o seu nome deriva da palavra herma (ἕρμα), vocábulo grego que designa um montículo de pedras usado para delimitar um terreno. E “herma”, palavra portuguesa, designa mais ou menos o mesmo.


Como de costume se fazia às crianças, Hermes assim que nasceu viu-se envolvido em faixas e colocado num berço. Mas logo no primeiro dia de vida demonstrou a sua dissimulação e habilidade: de tantas voltas dar no berço conseguiu livrar-se das faixas e fugir. A um deus é permitido fugir com um dia de vida!


Dirigiu-se para a Tessália, onde o seu irmão Apolo apascentava o gado, no tempo em que ainda se dedicava à pastorícia. Aí Hermes, sem mais, roubou vacas, novilhas e um touro a seu irmão, dirigindo-se depois para Pilos, onde se escondeu numa caverna. Não querendo ser seguido, atou ramos às caudas dos animais para apagar o rasto do trajecto; noutras versões calçou os animais com tamancos ou fê-los andar em marcha à ré, para dissimular o sentido da marcha.


Depois de um sacrifício na caverna de Pilos, fugiria para Cilene, onde encontrou uma tartaruga à entrada de uma gruta.  Esvaziando a carapaça da tartaruga e atando-lhe cordas feitas com os intestinos dos animais sacrificados inventou a lira. Seu irmão, que ainda era pastor, ouvira-o tocar; encontrando a lira na gruta de Cilene ficou a tal ponto encantado que deixou os rebanhos para se dedicar à música.


Só a invenção da lira daria suficiente reputação a este astuto deus, mas o seu engenho criaria ainda a siringe, a flauta de Pã. Apolo, decerto já deliciado com os timbres líricos, quis comprar a flauta ao seu irmão. Hermes vendeu-lha, mas não sem antes receber lições de adivinhação, bem como a vara de ouro – o caduceu – que Apolo usara para pastorear o gado. Hermes não dava ponto sem nó.


Encantado com os dons de adivinhação de Hermes, Zeus fez dele seu mensageiro. Seria talvez esta reputação de Hermes que levaria Homero a fazer dele o portador de mensagens cruciais para Ulisses: é ele quem transmite a Calipso a ordem de libertação de Ulisses e de o ajudar a construir uma jangada para poder regressar aos braços de Penélope; é também Hermes quem dá a conhecer a Ulisses a planta mágica que lhe permitirá escapar aos encantamentos de Circe.


Esta arte de mensageiro que Hermes adquiriu reputou-o como bem sucedido comunicador junto de inimigos e estranhos. Seria por esta via que o nome de Hermes daria origem à palavra grega hermeneuein, que significa “interpretar”, recolhida pela língua portuguesa na “hermenêutica”. Interessante facto, ainda que mitológico, é Hermes ser tido como patrono da oratória, talvez porque o orador precise antes de mais de saber interpretar, i.e. de ser hermeneuta.

Cf. Hesiod, the Homeric Hymns and Homerica, Cambridge - Massuchussets - London: Harvard University Press, 1982.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

As uvas de Zeuxis





Os filósofos e os historiadores da Antiguidade Grega pouca nota deram de artes como a escultura ou a pintura. O facto é que estas duas artes não estavam atribuídas a nenhuma Musa porque o ofício de artista era pouco apreciado, sendo por isso colocado num patamar social hierarquicamente inferior. Porém, um estudo dos estereótipos sobre os agentes das Belas-Artes permite perceber as modalidades históricas dessa área de significação.


Por exemplo, a ideia de que o pintor ou o escultor é um ser inspirado, como se de um pequeno deus se tratasse, não tinha lugar no antigo conceito de artista: esse estatuto estava reservado apenas aos escritores. Só com o advento do movimento humanista se fez essa associação. Seria Marsílio Ficino a ligar a ideia platónica de enthousiasmos, de loucura de inspiração divina, ao campo das Belas-Artes e que, de resto, iria mais tarde dar lugar ao conceito contemporâneo de génio que trabalha para um reconhecimento post mortem.


Mas já na Antiguidade Grega um artista inteligente tentaria provar que as suas capacidades eram mais que mera competência técnica. O exercitador de Belas-Artes como a escultura ou a pintura esforçava-se por se distinguir do mero artesão, queria já separar a arte do artesanato. Para tal, os artistas permitiam-se até não receber dinheiro pelas suas obras de arte, de forma a vincarem a sua distinção em relação aos bánausoi, os que faziam da reprodução artística uma actividade puramente mecânica.


Zeuxis, um pintor grego do séc. V a.C. do qual não possuímos hoje nenhuma obra (o que em si já é significativo), considerava-se com frequência injustiçado pelos seus concidadãos, já que eles não apreciavam devidamente as suas obras de arte. Por essa razão decidiu distribuir as suas pinturas gratuitamente, com a justificação de que eram impagáveis! Na verdade, pretendia demarcar-se dos tais bánausoi.


Por outro lado, o reconhecimento artístico era buscado pela via da disputa retórica com colegas de profissão ou perante o público.Um famoso concurso ocorreu entre Zeuxis e Parrássio, segundo conta Plínio na sua Naturalis Historia: Zeuxis decidiu apresentar a Parrássio uma pintura em que estavam representadas uvas, mas uvas de tal modo realistas que os pássaros se dirigiram a elas para as debicarem. Imagina-se o espanto de Parrássio, mas este não se ficou: quando Zeuxis pediu que o seu rival afastasse a cortina da tela para que ele pudesse ver a sua pintura, Parrássio esclareceu que a cortina era a própria pintura. Se Zeuxis enganara os pássaros, Parrásio iludira um homem: o próprio Zeuxis!


Cf. Wyss, Beat, "Artists, Legends Concerning", Brill's New Pauly, vol. I, Leiden-Boston: Brill, 2006.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A poção do amor



Na Atenas clássica, as leis que regulavam o homicídio formavam uma categoria especial, já que parece terem sido sujeitas a poucas alterações desde as reformas de Sólon, no séc. VII a.C. A razão desta estabilidade parece encontrar-se na forte ligação desta área jurídica com a religião: o homicídio poluía não só o assassino como também aqueles que com ele contactavam. Logo no início da acusação, o homicida era advertido para se abster de qualquer actividade religiosa e social, pois estava impuro. Os julgamentos destes casos decorriam mesmo ao ar livre para que juízes e acusados não convivessem sob um mesmo tecto. O Areópago era apenas o local mais imporante destes julgamentos.

Antífone, um logógrafo ateniense do séc. V a.C., escritor profissional de discursos, deixou-nos um discurso de acusação em que uma mulher é acusada de ter envenenado o seu marido. O acusador – quem leu em julgamento o discurso preparado por Antífone – foi o filho do primeiro casamento do assassinado, a acusada a segunda esposa do morto e o defensor desta o seu filho, meio-irmão do acusador, já que nasceu do segundo casamento do pai.

O acusador alega que o facto do filho do assassinado e da acusada ter recusado a aplicação de tortura a uma escrava, para conseguir uma confissão de culpa, prova que ele sabe bem quem foi o responsável pelo homicídio do pai de ambos. Após ter alegado a intenção de ocultação da verdade, por parte do seu meio-irmão e da sua madrasta, o acusador avança com a reconstituição da cena do crime.

A sua madrasta dirigiu-se a uma concubina de Filoneu, amigo do assassinado, para se queixar que o seu marido tinha perdido o afecto por ela. Porém, pensava ter a solução para recuperar o amor do seu marido: preparara uma poção amorosa para resolver o problema. Pediu então à concubina que administrasse a poção ao seu esposo logo que pudesse.

Esta concubina, numa ocasião em que Filoneu e o seu amigo estavam a jantar, depois de terem feito sacrifícios a Zeus, em momento oportuno derramou a poção amorosa no copo do assassinado e, pensando que também não faria mal acicatar um pouco mais o desejo de Filoneu por ela mesma, verteu uma quantidade ainda maior da poção amorosa na taça do seu amante.

O resultado da poção amorosa não podia ser outro: Filoneu morreu imediatamente e o seu amigo ficaria de tal modo doente que passado vinte dias também morreria. A poção amorosa que a agora acusada em julgamento preparara era afinal veneno mortal!

O acusador pede ao tribunal que a acusada seja condenada sem piedade alguma, já que ela engendrou o terrível crime sem qualquer hesitação nem pudor. Alega que foi o seu próprio pai que lhe pediu que tratasse da acusação da sua segunda esposa, tendo-lhe revelado a verdade dos factos no período decorrido entre a beberagem fatal e o seu último suspiro.

As dúvidas diminuiriam com a aplicação de tortura à concubina de Filoneu, que confessaria ter administrado a poção amorosa ao seu amante e ao pai do acusador neste julgamento. A sentença final não é conhecida, mas sabe-se que a concubina – que não chegou a incriminar a madrasta do acusador, apenas confessou ter administrado o cocktail fatal – morreu logo depois. Passou-se isto no séc. V a.C., em Atenas: com tragédias assim quem precisa de Romeu e Julieta?
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Cf. Carey, Christopher, Trials from Classical Athens, London - New York: Routledge, 2001.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

As armas e as letras

Arquíloco, conhecido na Antiguidade como o primeiro poeta grego depois de Homero e de Hesíodo, viveu na época das grandes colonizações gregas, no séc. VII a.C. Sabe-se que nasceu em Paros, ilha do Egeu que alberga cidade de nome igual. Filho de Enipo, uma escrava, experimentou a pobreza em vida, tendo de se mudar da sua ilha natal para Tassos. Ganhou a vida como mercenário estrangeiro, mas ficaria na nossa memória pela beleza dos seus poemas, vista apenas naqueles que conseguiram chegar até hoje, vinte e sete séculos depois de terem sido escritos. Os seus versos mostram que a luta era traço essencial do seu carácter, quer o combate bélico, quer a disputa em verso. No primeiro fragmento de Arquíloco, na ordenação de Diehl, o poeta reune a sua dupla natureza de poeta-soldado num eloquente dístico elegíaco:

"Eu sou o servidor de Ares, senhor Eniálio,

e sapiente dos amáveis dons das Musas."

Um claro antepassado do topos literário das armas e das letras, ou “the pen and the sword” na versão inglesa. Porventura o que mais espantará o leitor do séc. XXI é a associação destas duas actividades numa só pessoa. Ao invés do que acontece com “the pen and the sword”, que parece serem duas vias alternativas e mutuamente exclusivas de combate, em Arquíloco elas estão reunidas. Combater com uma delas não exclui a luta com a outra. Um guerreiro samurai do período clássico também não julgaria estranha esta associação. Contudo, quantos soldados-poetas temos hoje?

sábado, 11 de julho de 2009

A titilante de Cnido



A estátua chamada Afrodite de Cnido foi esculpida por Praxíteles em 340 a.C., tendo sido destinada ao templo de Afrodite em Cnido. Para Plínio-o-Velho era a mais perfeita escultura dum ser feminino nu, mulher ou deusa. Segundo vários autores antigos, entre os quais Filóstrato e Valério Máximo, bem como Plínio, a estátua foi mesmo alvo de um bizarro ataque amoroso por parte de um homem enfeitiçado pela sua beleza e verosimilhança.


Esta obra de arte está hoje perdida, mas a sua iconografia foi recuperada no séc. XVIII a partir de moedas encontradas em Cnido. A Venus Colonna, que vemos na imagem, esculpida na Antiguidade romana do período imperial, é considerada a cópia mais próxima do original.


Já na Antiguidade os Padres da Igreja usavam esta obra de arte como móbil para a destruição dos ídolos pagãos. O mimo titilante da figura iria ser usado para dar uma conotação sexual a todas as representações de Vénus - e em geral a todas as representações antropomórficas - que seriam então consideradas imagens pagãs a destruir.


Na Alta Idade Média, contava-se uma lenda acerca dos poderes demoníacos das estátuas de Afrodite e de Vénus. Dizia-se que um jovem colocara um anel de casamento num dos dedos da estátua para o guardar por breves instantes e, por causa disso, na sua noite de núpcias, Vénus teria aparecido e impedido que o casamento se consumasse, já que o nubente havia colocado o anel no dedo de Vénus e não no da sua amada mortal. Foi mesmo preciso fazer um exorcismo para que o feitiço se quebrasse e o casamento pudesse ser finalmente consumado.


Mais tarde, Gautier de Coincy, um abade francês do séc. XII-XIII, substituiria a estátua de Vénus por uma Virgem Maria, transformando o jovem esposo ansioso pela consumação do casamento num celibatário vitalício. Mais recentemente, Renoir, Dali e Paul Klee haveriam de retomar o tema da Afrodite de Cnido, cada um a seu estilo, e parece até que a sua recepção artísitica - da Afrodite de Cnido - só não foi maior porque durante muito tempo se desconheceu a sua existência física. Hoje podemos contemplá-la de novo, ainda que em cópia aproximada.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

A descoberta do Labirinto


Segundo a mitologia grega, Zeus teria nascido na ilha de Creta, no Sul do Egeu. Aí era alimentado com mel que lhe levavam as abelhas e leite que a cabra Amalteia lhe dispensava, desfrutando ainda dos cuidados das ninfas. Minos, rei lendário e filho de Zeus e de Europa, reinara também em Creta. Conta a estória que Minos teria pedido a Posídon um touro para que lho sacrificasse, porém, afeiçoando-se ao animal decidiu conservá-lo.


Mais tarde, a mulher de Minos, Pasífae, depois de se unir ao touro haveria de conceber o Minotauro. Minos, envergonhado com o sucedido, ordenou a Dédalo que encerrasse o Minotauro no Labirinto, um complexo de salas e corredores onde qualquer um haveria de se perder. O resto da história é como se sabe: Teseu encontra o caminho até ao Minotauro e consegue matá-lo; no regresso foi só regressar pela via apontada pelo fio de Ariadne.


Esta lenda haveria de ganhar contornos de verdade depois de Arthur Evans ter descoberto um palácio na ilha de Creta, no início do séc. XX: de grande fausto e beleza, tinha tantos corredores, aposentos e salões dispostos de tal forma confusa que qualquer um se lembraria de um labirinto: Evans descobrira finalmente o palácio de Minos, em Cnossos - a imagem acima é uma reconstrução desse palácio. Talvez procurando o seu Minotauro, Evans, qual Teseu, descobrira o Labirinto.
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Beleza sáfica

Charles Mengin assim imaginou Safo por volta de 1877. A cena reporta-se à mítica história sobre o fim da poetisa de Lesbos, que se teria afogado por amor de Fáon, que é, afinal, uma figura literária de Ovídio nas Heróides. No séc. X, a Suda, uma espécie de léxico cultural bizantino, ainda recolhe esta falsa versão sobre o fim de Safo. Porém, noutra interpretação, esta associação de Safo a Fáon é uma tentativa de a desligar do campo semântico do homoerotismo, quiçá fruto de algum preconceito. Para além da associação da poetisa ao lesbianismo, Safo, a mulher que se sabe que teve uma filha e marido, permanece na nossa memória pela beleza literária, assim:

"Aquele parece-me ser igual aos deuses,
o homem que à tua frente
está sentado e escuta de perto
a tua voz tão suave

e o teu riso maravilhoso. Na verdade isto
põe-me o coração a palpitar no peito.
Pois quando te olho num relance, já não
consigo falar:

a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda. Fico mais verde do que a relva
e tenho a impressão de que por pouco
que não morro."

(trad. de Frederico Lourenço, em Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa: Cotovia, 2006)