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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pleiades database


Informação histórico-geográfica do período greco-romano. "Pleiades gives scholars, students, and enthusiasts worldwide the ability to use, create, and share historical geographic information about the Greek and Roman World in digital form." Aqui.
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domingo, 6 de dezembro de 2009

Roma cheirosa capital




Nos primeiros tempos de Roma, o uso do perfume cingia-se a um feixe de verbena pendurado na porta, para afastar o mau-olhado. Mesmo os sacrifícios aos deuses eram limitados a um ramo de louro e um pouco de sal a perfumar as fumegantes carnes. Porém, os contactos com Etruscos, Gregos, Egípcios e Fenícios, bem como com outros povos asiáticos e africanos, tornaram os Romanos mais apreciadores da arte do perfume, integrando-a no quotidiano.


A mudança foi também económica ou comercial: a conquista romana da Arábia, em 109 d.C., permitiu um maior domínio das rotas comerciais do Oriente, abrindo caminho para que diversos perfumes chegassem a Roma e fazendo que os valentes soldados romanos abrissem as narinas às fragrâncias orientais.


Efectivamente, a sedução que Cleópatra VII Filopator exerceu sobre Júlio César e Marco António também terá passado pelos seus seios perinasais, excitando cornetos superiores e inferiores e sensibilizando os respectivos bulbos olfactivos.  Conta-se que Cleópatra VII recebeu Marco António num barco cujas velas estavam embebidas em perfume, com a própria tripulação elegantemente vestida e abudantemente perfumada. O próprio trono de Cleópatra estava rodeado de piras perfumantes, fazendo com que Cleópatra, meio vestida (ou meio despida), aparecesse envolta num inebriante perfume.


A moda, qual pandemia gripal, espalhou-se pelos soldados romanos, a tal ponto que logo no séc. I a.C. os centuriões romanos iam para a guerra acompanhados de um cofre de perfumes, chegando mesmo a aromatizar as próprias armas. Inclusivé, as águias e os estandartes romanos eram perfumados antes da guerra ou das aborrecidas paradas oficiais.


A necessidade do uso de perfumes em Roma parece estar relacionada com as deficientes condições de salubridade da cidade, mas não só: a técnica de persuasão dos deuses através das narinas aparece também em Roma e na religião romana, já que um dos caminhos mais curtos para chegar aos altíssimos deuses passava pela oferta de perfumes aos Romae dii, às divindades de Roma.


Para aferir da importância social do perfume, bastará lembrar que os unguentarii, os produtores de perfumes, recebiam a mesma estima pública que os médicos, ocupando posições honoríficas ou de carácter sócio-religioso. As lojas de perfumes, em Roma, estavam concentradas no Vicus Thurarius, onde o famoso perfumista Cosmus tinha a sua loja. Mas também em Cápua, a capital italiana do perfume, havia uma zona dedicada ao comércio de unguentos bem cheirosos, designada Spelasia.


Havia perfumes para todos os gostos: sólidos (ou hedysmata), líquidos (stygmata) ou em pó (diapasmata), sendo os  primeiros os mais favorecidos pelo público. Os homens, por exemplo, para tratar os pequenos cortes produzidos pelo barbear massajavam a cara com unguentos aromatizantes, prosseguindo com a aplicação de perfume no cabelo.


Mas também as mulheres romanas tratavam da sua embalsamante pulcritude: um dos casos mais extraordinários remete para a mulher de Nero, Popeia: pelo que se conta, chegou a tomar banho com leite de burra para ficar com a pele mais cheirosa. Parece que a senhora era a tal ponto extravagante que foi exilada de Roma, ainda que insistisse em levar com ela cinquenta burras que lhe fornecessem leite para os delico-doces banhos.


No quotidiano mais banal da mulher romana havia também lugar para o perfume. Depois do banho, as ornatrices tratavam da cidadã romana com um sofisticado ritual de beleza: as tractatores massajavam-na depois do banho, as unctoristes aplicavam os diversos unguentos nas várias partes do corpo, as dropecistes tratavam das mãos e dos pés, as depilaristes está-se mesmo a ver que removiam os pêlos inestéticos e, finalmente, as calamistes penteavam e ornamentavam o cabelo, por vezes com pó, não de arroz, mas de ouro.


A rarirade de mulheres louras em Roma fazia que muitas quisessem clarear o cabelo, recorrendo a lavagens frequentes com um bálsamo extraído do arbusto tropical conhecido por Lawsonia inermis. As prostitutas eram mesmo obrigadas a usar o cabelo louro, pois estavam proibidas de usar cabelo preto. Uma vez o cabelo seco, era finalmente vaporizado com um perfume: a técnica de vaporização não podia ser mais natural, uma escrava especialmente dedicada a essa função usava a sua boca, previamente perfumada, como vaporizador do cabelo da sua ama.  Pelo menos assim não trazia problemas à camada de ozono…


Cf. Seefried, Monica, "Perfume in roman daily life", The Fragrant Past, Perfumes of Cleopatra and Julius Caesar, Atlanta: Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato, 1989.
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sábado, 18 de julho de 2009

Mãe é mãe


Em Roma, como noutras partes do mundo antigo, as mulheres não foram especialmente favorecidas, mas algumas houve que fizeram a diferença. Márcia Antónia, filha de Marco António e de Octávia, a irmã mais velha de Augusto, foi uma delas. Sabemos que nasceu a 31 de Janeiro de 36 a.C. e que, ao que parece, nunca terá visto o seu pai, que trocou Octávia por Cleópatra antes dela ter nascido. Oficialmente divorciada em 32 a.C., Octávia foi viver com os seus filhos para casa de Augusto e de sua mulher Lívia, onde Márcia Antónia teve uma esmerada educação propiciada pela família real. O seu casamento foi bem cedo concertado: haveria de casar com Druso quando completasse 18 anos. Porém, apesar desta imposição matrimonial, o casamento de Antónia e Druso tornar-se-ia lendário pela sua harmonia, fidelidade e felicidade.
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O poeta grego Crinágoras chamou-lhe "suprema em beleza e em espírito", Plutarco refere a sua beleza e discrição e Josefo lembra a sua castidade. Plínio o Velho acentuou o seu modo fino e delicado, dizendo que cuspir era contra a sua natureza. Alguns registos numismáticos e de estatuária transmitem uma imagem de beleza clássica e espírito penetrante. Por sua vez, Druso, o seu marido, era visto como um homem enérgico, carismático e muito dedicado à esposa. Com o seu irmão Tibério conquistou os Alpes e estendeu o poder romano às tribos germânicas.
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Em 9 a.C., Druso, que era com frequência acompanhado pela mulher, caíu do cavalo e partiu uma perna, daí em diante sofrendo cada vez mais. Tibério, que estava em Roma, ainda chegou a tempo de ouvir o último suspiro de seu irmão, que acabaria por ser levado para Roma já morto. A mãe de Antónia havia morrido dois anos antes. Ovídio conta que Márcia Antónia, então com 27 anos, esteve à beira da loucura e do suicídio. Não haveria de casar com mais nenhum homem nos próximos 45 anos de vida que lhe restavam.
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Porém, Antónia tinha três filhos e uma fortuna para gerir e, na sua villa em Bauli na Campânia, tinha ainda um famoso animal de estimação: uma lampreia a tal ponto estimada que Antónia lhe mandou fazer brincos. Dos seus três filhos, Germânico, Livilla e Cláudio, este era o menos dotado: a doença tornara-o afectado na voz, no modo de andar e em geral no seu comportamento. Quando Antónia queria apelidar alguém de estúpido costumava dizer "mais estúpido do que o meu filho Cláudio". Mas Sejano, um poderoso homem junto de Tibério (imperador desde 14 d.C.), haveria de conseguir casar o mais estúpido filho de Antónia - nas suas palavras.
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Calígula sucederia a Tibério no imperialato romano, mas apenas por quatro anos, ficando conhecido pela sua insanidade, crueldade e depravação. Foi também ele quem atribuíu a Márcia Antónia os títulos de Augusta, de Virgem Vestal e de sacerdotisa do culto do divo Augusto. Seis semanas depois de Calígula chegar ao poder, Márcia Antónia morreria. Foram adiantadas duas causas para a sua morte: assassinato cometido por Calígula ou suicídio. Ambas algo improváveis. Antónia permaneceria como a tradicional matrona romana e um modelo a seguir por todas as mulheres que tivessem algum poder e liberdade. Um exemplo de devoção conjugal e independência de espírito - sem ironia.
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Mas Antónia já não pôde ver o seu filho tornar-se imperador no ano 41 d.C. Se ainda vivesse, veria como o seu filho lhe reatribuíu o título de Augusta e organizou jogos anuais para celebrar o seu aniversário. A celebração de sua mãe não parece ter sido um caso de manobra política (tese plausível dada a influência do nome de Antónia nos círculos do poder), o que parece ser demonstrado pela duração e magnitude dos tributos concedidos por Cláudio a sua mãe, post mortem. Tudo aponta para um caso de simples amor filial. Afinal de contas mãe é mãe.
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sábado, 11 de julho de 2009

A titilante de Cnido



A estátua chamada Afrodite de Cnido foi esculpida por Praxíteles em 340 a.C., tendo sido destinada ao templo de Afrodite em Cnido. Para Plínio-o-Velho era a mais perfeita escultura dum ser feminino nu, mulher ou deusa. Segundo vários autores antigos, entre os quais Filóstrato e Valério Máximo, bem como Plínio, a estátua foi mesmo alvo de um bizarro ataque amoroso por parte de um homem enfeitiçado pela sua beleza e verosimilhança.


Esta obra de arte está hoje perdida, mas a sua iconografia foi recuperada no séc. XVIII a partir de moedas encontradas em Cnido. A Venus Colonna, que vemos na imagem, esculpida na Antiguidade romana do período imperial, é considerada a cópia mais próxima do original.


Já na Antiguidade os Padres da Igreja usavam esta obra de arte como móbil para a destruição dos ídolos pagãos. O mimo titilante da figura iria ser usado para dar uma conotação sexual a todas as representações de Vénus - e em geral a todas as representações antropomórficas - que seriam então consideradas imagens pagãs a destruir.


Na Alta Idade Média, contava-se uma lenda acerca dos poderes demoníacos das estátuas de Afrodite e de Vénus. Dizia-se que um jovem colocara um anel de casamento num dos dedos da estátua para o guardar por breves instantes e, por causa disso, na sua noite de núpcias, Vénus teria aparecido e impedido que o casamento se consumasse, já que o nubente havia colocado o anel no dedo de Vénus e não no da sua amada mortal. Foi mesmo preciso fazer um exorcismo para que o feitiço se quebrasse e o casamento pudesse ser finalmente consumado.


Mais tarde, Gautier de Coincy, um abade francês do séc. XII-XIII, substituiria a estátua de Vénus por uma Virgem Maria, transformando o jovem esposo ansioso pela consumação do casamento num celibatário vitalício. Mais recentemente, Renoir, Dali e Paul Klee haveriam de retomar o tema da Afrodite de Cnido, cada um a seu estilo, e parece até que a sua recepção artísitica - da Afrodite de Cnido - só não foi maior porque durante muito tempo se desconheceu a sua existência física. Hoje podemos contemplá-la de novo, ainda que em cópia aproximada.
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

César e o amor amarrotado



No final de 48 a.C., Cleópatra VII Filopator, então com 21 anos, disputava o trono do Egipto com o seu irmão e marido Ptolomeu XIV: o velho Egipto estava à beira da guerra civil. Caio Júlio César, então com 52 anos, chegava a Alexandria, depois de ter conseguido que Pompeio fosse assassinado. César cobiçava o Egipto desde 65 a.C., altura em que foi edil e agora mais do que nunca a situação parecia-lhe propícia.

Ptolomeu XIV apressou-se a enviar emissários a César para lhe oferecerem o seu servilismo, mas o general-chefe de Ptolomeu XIV decidiu enfrentar César com mais de 20.000 soldados egípcios: Alexandria era uma cidade em estado de sítio.

Cleópatra tinha assim um obstáculo a ultrapassar para se encontrar com César, com o objectivo de lhe propôr uma aliança diferente da proposta por seu irmão-marido. Seria Apolodoro, um musculado professor de Cleópatra e seu apaixonado, que resolveria o problema: andrajosamente vestido, conduziu Cleópatra até ao porto de Alexandria, onde desembarcaram. Subsistia o problema de passar pelos jardins e terraços do palácio, até chegar a César. Mas Apolodoro trazia consigo um pedaço de pano grosseiro que os carregadores usavam para embalar os volumes: embrulhou Cleópatra e levou-a às costas, conseguindo finalmente desembrulhá-la em frente de César que esperava ver, não uma mulher esguedelhada e de vestido amarrotado, mas um molho de tapetes orientais. Imagina-se facilmente o espanto de César, mas parece que a beleza da jovem o impressionou; não porque estivesse tão bem arranjada como na pintura acima (Jean-Léon Gérôme, 1866).

E aqui a história bifurca-se: uns dizem que a união de César com Cleópatra foi resultado de estratégia política, outros dizem que César e Cleópatra se amaram apaixonadamente. Só César podia salvar Cleópatra e esta podia também satisfazer as ambições daquele. Uma coisa é certa: se aconteceu é porque não podia deixar de ter acontecido. Dizer mais do que isto pode já não ser história.
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

O último dia de Marco Aurélio

Este relevo do período 161-180 d.C. mostra o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.) rodeado de soldados e admiradores, possivelmente aquando do seu regresso das vitoriosas campanhas do Danúbio. Saberiam eles, no meio de tanta agitação, que o homem que veneram é o mesmo que disse que "a perfeição moral consiste em passar cada dia como se fosse o último, em evitar a agitação, o torpor e a falsidade"?