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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Parménides ou Platão?


Excerto do diálogo entre Parménides (recriado por Platão) e Aristóteles (este não o Estagirita), linhas finais do Parménides de Platão (trad. A. Lobo Vilela):

Parménides: "Portanto, se disséssemos, em resumo, que nada existe se o uno não existe, falaríamos com justeza."
Aristóteles: "Com perfeita justeza."
Parménides: "Digamo-lo pois, e acrescentemos que, segundo parece, quer o uno exista, quer não, ele e as outras coisas, relativamente a si mesmos e uns aos outros, são absolutamente tudo e não o são, parecem sê-lo e não o parecem."
Aristóteles: "É perfeitamente exacto".

Em grego clássico:

- οὐκοῦν καὶ  συλλήβδην εἰ εἴποιμεν, ἓν εἰ μὴ ἔστιν, οὐδέν ἐστιν, ὀρθῶς ἂν εἴποιμεν·
- παντάπασι μὲν οὖν.
- εἰρήσθω τοίνυν τοῦτό τε καὶ ὅτι, ὡς ἔοικεν, ἓν εἴτ᾽ ἔστιν εἴτε μὴ ἔστιν, αὐτό τε καὶ τἆλλα καὶ πρὸς αὑτὰ καὶ πρὸς ἄλληλα πάντα πάντως ἐστί τε καὶ οὐκ ἔστι καὶ φαίνεταί τε καὶ οὐ φαίνεται.
- ἀληθέστατα.
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sábado, 17 de abril de 2010

Amores platónicos

Platão pintado por Rafael (1483-1520)

O posicionamento social em relação ao homoerotismo feminino tem hoje características curiosamente semelhantes a algumas opiniões correntes na Antiguidade Clássica, ainda que salvaguardadas as devidas diferenças. O caso de Platão (428-348 a.C) parece ser paradigmático de alguns dilemas bem actuais nesta matéria. No Banquete, Platão pela voz de Aristófanes diz o seguinte:


“Cada um de nós não passa, pois, de uma téssera humana, divididos, como estamos, em metades, à semelhança dos linguados; e é a sua própria metade, ou téssera, que cada um infatigavelmente procura. Em consequência, todos os homens que resultam do corte de um ser misto (o mesmo que em tempos era chamado andrógino) só gostam de mulheres. É deste género que descende a maior parte dos adúlteros, bem como todas as mulheres que gostam de homens – sem esquecer as adúlteras! Por outro lado, todas as mulheres que resultam do corte de um ser feminino não ligam praticamente aos homens e voltam-se de preferência para as mulheres: e aí estão as “comadrinhas” a ilustrar a descendência do género…” (Banquete, 191e, tradução de M. T. Schiappa de Azevedo).

Aqui, Platão na voz de Aristófanes ou Aristófanes na pena de Platão parece admitir a naturalidade da orientação homoerótica feminina, aquela que observava no seu tempo nas ditas “comadrinhas”. Porém, numa obra tardia do filósofo ateniense, intitulada Leis, a opção parece ser já outra, enunciada por um ateniense sem nome:

“E se alguém faz esta observação seriamente ou na brincadeira, dever-se-ia pensar que na união de uma natureza feminina e de uma masculina, destinada à procriação, o prazer parece ser obtido segundo a natureza, mas a união de uma natureza masculina com outra masculina ou de uma feminina com outra feminina é contra natura e o arrojo destes princípios parece ser causado pela escravidão do prazer.” (Leis, 636b)

Com outra tónica, este parece já não ser o Platão do Banquete: afinal Platão aceitava ou não o amor lésbico? A resposta, porventura, não será a mais relevante. O problema não estará em Platão não ter uma resposta uniforme a este problema, mas pelo contrário no facto da pergunta estar assim formulada.

Dito de outra forma: podem procurar-se respostas em Platão, e o tema do homoerotismo serve apenas como exemplo, mas porventura o que o filósofo quis, em grande parte dos seus Diálogos, não foi dar respostas definitivas aos diversos assuntos que abordou: pelo contrário, quis pôr em marcha uma dialéctica de investigação pessoal que pode gerar respostas aos diversos problemas, em cada um dos leitores platónicos. Como se o filósofo não quisesse apontar postulados ou teoremas filosóficos, antes desejando mostrar como se pode dialecticamente filosofar. Chamam a isto o carácter zetético da filosofia, do verbo grego zêtein, que significa “procurar”.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A tartaruga de Aquiles


Segundo Zenão, filósofo grego de Eleia, nascido em 489 a.C., numa corrida entre Aquiles e uma tartaruga, se esta tiver um passo de avanço em relação ao primeiro, este nunca a conseguirá atingir, já que, antes  de Aquiles atingir a tartaruga, teria que chegar primeiro ao lugar de onde a tartaruga partiu e, ao lá chegar, teria de novo que atingir aquele ponto de onde a tartaruga avançou mais um pouco, pelo que Aquiles se aproximará cada vez mais da tartaruga mas nunca a atingirá, nem tão pouco a ultrapassará.

Na interpretação de alguns, este argumento arruma-se com outras prosas zenónicas dedicadas a negar a realidade do movimento. Mas como pode um filósofo adepto da teoria parmenídea do ser – o que pressuporá que a compreendeu – negar o que lhe saltava à vista sempre que abria os olhos, a saber, que as coisas se movem?

Se é pensável que Zenão quis defender a teoria do ser de Parménides, também é pensável que Zenão não quisesse demonstrar a irrealidade do espaço e do tempo, ou seja do movimento que combina estes dois, mas quisesse, ao invés, negar a sua pensabilidade. Não a sua realidade. Como se o pensar exigisse fixação em algo que é, “…pois é o mesmo pensar e ser…”, como disse justamente Parménides.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Saber segundo Heraclito


Heraclito foi conhecido como um obscuro proponente de enigmas, o que lhe teria custado a vida, já que os médicos, que parece criticar, nada fizeram para o salvar. Os únicos pormenores sobre a sua vida, que talvez possamos aceitar com segurança, são que ele viveu em Éfeso, que descendia de uma antiga família aristocrática e que não manteve boas relações com os seus concidadãos. Tímon de Filiunte, autor satírico do século III a.C., apelidou-o de ainiktós, "aquele que se exprime por enigmas". Esta crítica deu mais tarde origem ao epíteto de skoteinós, obscurus em latim. Johannes Moreelse pensou-o e pintou-o no séc. XVII como aparece na figura acima.

Heraclito pretende mostrar que se apenas atentarmos no que a apreensão sensível nos dá acabamos por ficar numa irredutível multiplicidade de aspectos. O fr. 123 Diels-Kranz de Heraclito chama a atenção para o facto de que é necessário penetrar mais além e mais fundo, para além da multiplicidade da experiência. Por isso Heraclito diz que "a natureza gosta de se esconder" (fr. 123DK).

A visão tradicional disjuntiva do ou... ou... (v.g. ou a natureza se esconde ou se mostra, ou o uno ou o múltiplo, etc.) é afastada por Heraclito; ele tenta pensar esta oposição, esta contradição. O que é fundamental em Heraclito é uma unidade entretecida de multiplicidade e por outro uma multiplicidade que não é apenas o fragmentário, mas que está também em relação com a unidade, o que é o cerne da dialéctica. Heraclito procura responder à questão de como intervir numa realidade que é una e múltipla.

Heraclito avança na formulação da resposta a esta questão com a introdução da polumathia, o "saber muitas coisas". Porque, na confrontação com a multiplicidade, pode pensar-se que o saber é uma polumathia. Mas Heraclito afirma, no fr. 40 Diels-Kranz, que "o saber muitas coisas não ensina a ter inteligência (nous)".

Por outro lado, o fr. 35 Diels-Kranz diz que "É preciso que os homens que amam a sabedoria investiguem muitas coisas". O que afasta a ideia de que apenas a unidade abstracta interessa ao pensar filosófico, mas também a multiplicidade; o importante é articulá-los. Tem que haver uma articulação entre extensão e profundidade.

Noutro fragmento Heraclito diz "Com efeito, só uma coisa é sabedoria: conhecer fundadamente a razão que governa todas as coisas através de todas as coisas (diá pantôn)". Ou seja, sabedoria não é conhecer todas as coisas externamente, mas "através de todas as coisas", i.e., por meio delas próprias. Assim, Heraclito não procura a Unidade do Múltiplo, mas sim a Unidade no Múltiplo. Essa unidade que governa, essa estrutura, essa razão não é apenas do mas também no múltiplo.

Só estes poucos fragmentos de Heraclito dão bastante matéria para reflexão, sempre inacabada, abdicando temporariamente da flexão mundana.

Cf. Barata-Moura, José, Episteme - Perspectivas Gregas sobre o Saber, Heraclito-Platão-Aristóteles, Lisboa: 1979.

sábado, 4 de julho de 2009

O nascimento do mundo



Nos textos sumérios e acádicos que a tradição nos legou, não há nada que possa ser chamado de "história de criação", no entanto o tema do começo do mundo era comum a Sumérios e Semitas do Médio Oriente Antigo. Em vez da ideia de criação do mundo, operada por um criador supremo, como acontece na tradição bíblica, sumérios e semitas do médio Oriente pensaram um processo natural de desenvolvimento, um princípio interno de evolução, que desembocaria na ordem cósmica, no mundo organizado. Os próprios deuses nasceriam no decurso deste processo. Assim, o estado original do universo era um estado de indiferenciação, consistindo na existência de um único elemento: as águas primordiais, ou o grande fluido cósmico.


Curioso é que, dois milénios mais tarde, Anaximandro (n. 610 a.C), um filósofo grego pré-socrático, tivesse também pensado num princípio cosmológico, numa arquê, semelhante: uma matéria em que os elementos não estão ainda distintos, uma matéria infinita e indeterminada, designada em grego pela palavra ápeiron.


Em ambos os casos, no sumero-acádico e em Anaximandro, o processo de organização do mundo é um processo de diferenciação. Mas talvez seja fundamental a diferença entre ver o nascimento do mundo como processo histórico (na Suméria e na Acádia) e a organização do mundo como processo filosófico (Anaximandro). Para Anaximandro, é como se o mundo nascesse ao mesmo tempo que o conhecemos, conhecê-lo é criá-lo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Relembrando o mestre de Eleia


Parménides, filósofo grego do séc. V a.C, ficou conhecido pelas dificuldades que nos deixou em matéria de interpretação dos seus textos. A sua concepção de Ser iria ter continuidade na Teoria das Ideias de Platão. Uma famosa frase de Parménides é esta:
A tradução mais próxima do original é: "...pois é o mesmo pensar e ser". A sua interpretação é problemática: será mais lícito pensar que Parménides quisesse dizer que não se pode pensar sem atribuir algum ser ao pensado, ou concluir que tudo aquilo que é é pensável?