26 de novembro 1946 – 19 de setembro 2012
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
domingo, 10 de outubro de 2010
Mais impostos s.f.f.
Réplica de tabuinha neo-assíria com inventário de bens
Na fase da história hitita conhecida como o período das colónias assírias (sécs. XX-XVIII a.C.), estabeleceu-se um grande número de mercadores assírios na zona nordeste da Anatólia, que então realizavam um lucrativo comércio, por exemplo com margens de 100% no estanho ou mesmo 200% no caso dos têxteis. De qualquer modo, os grandes comerciantes não se coibiam de fugir a impostos e taxas que reputavam desnecessários.
Uma das formas conhecidas de escapar à tributação consistia em levar as mercadorias por caminhos conhecidos como ḫarran suqinnim, ou seja, “atalhos”, fugindo assim ao controlo de circulação de mercadorias efectuado nas grandes avenidas da época. Um método alternativo, ou complementar, passava por fazer entrar mercadorias nas cidades em pequenas quantidades, frequentemente escondidas debaixo da roupa. Havia até contrabando de mercadorias ilícitas, especialmente exportação de ferro meteorítico, que estava proibida dada a raridade deste metal.
Sobreviveu um registo de um conselho dum comerciante a um sócio acerca dos problemas do contrabando:
“O filho de Irra enviou os seus bens contrabandeados a Pushu-ken, mas os bens contrabandeados foram apanhados e o palácio [ou seja, as autoridades do palácio] capturaram Pushu-ken e puseram-no na prisão. Os guardas são fortes. A rainha enviou mensagens a Luhusaddia, Hurrama, Salahsuwa e ao seu próprio país acerca do contrabando e foram colocados vigias [literalmente “olhos”]. Por favor não contrabandeies nada.”
À parte as duras penas aplicadas aos contrabandistas, frequentemente prisão e confiscação dos bens, é caso para perguntar se este comerciante partilharia daquela ideia chinesa de que “quem prospera não discute impostos” ou se, inversamente, adaptaria este provérbio à sua maneira. O facto é que ele, de forma até bastante educada, roga ao sócio para que “por favor” não contrabandeie. Sem dúvida, um exemplo de empresário.
Cf. BRYCE, Trevor, The Kingdom of the Hittites, Oxford: Oxford University Press, 2005.
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domingo, 25 de outubro de 2009
A interpretação dos sonhos
“Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida / Que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança”. Assim diz António Gedeão em poema musicado e ouvido até à exaustão: a famosa Pedra Filosofal, claro está. Porém, entre os Hititas, povo que viveu na Anatólia antiga – na zona da actual Turquia - entre o séc. XVIII a.C. e o séc. XIII a.C., o sonho nem sempre serviu para pular e avançar, por vezes obrigava a parar e a adiar, especialmente rituais.
Na Anatólia hitita, a pureza ritual implicava ter uma conduta irrepreensível, de tal modo que em vários textos anatólicos da região de Kizzuwatna e de Arzawa se percebe que o sonho ajudava a determinar o estado de pureza do sonhador, essencial para a boa realização do ritual, fosse de nascimento ou destinado a outros fins.
Num ritual de nascimento kizzuwatniano, destinado a ser realizado por uma mulher grávida, lê-se o seguinte: “No dia seguinte, a mulher lava-se. Se a mulher, em consequência do seu sonho, está pura, o sacerdote patili coundiza-la-á à mesa de parto. Mas se, em consequência do sonho, ela não estiver pura, ela prosternar-se-á diante do ‘quarto interior’. De seguida, do exterior do quarto, ela aproximará a mão da mesa de parto.” (KUB 9.22 iii 29–37).
Trata-se de um ritual de incubação divinatório que a mulher grávida deveria fazer por indicação do sacerdote patili. O sonho que a mulher grávida conta ao sacerdote patili é por este interpretado revelando assim a disposição dos deuses: se estão favoráveis ou não. Apenas depois da aprovação sacerdotal, ou seja, do bom resultado que a hermenêutica aplicada ao sonho permitisse, a mulher se poderia deitar na cama de parto e finalmente dar à luz.
Se porventura a mulher não tivesse tido nenhum sonho ou ele não fosse claro em relação à vontade dos deuses, o sacerdote interpretaria a situação como desaprovação divina e a mulher, grávida, teria de esperar por melhor momento para realizar o ritual de nascimento e então dar à luz. Adivinham-se algumas complicações na aplicação deste ritual, a lei da natureza nem sempre acompanha a lei divina…
A pureza, era o problema da pureza que estava na base das preocupações de sacerdotes e parturientes. Mas não só, também os doentes se preocupavam com o seu grau de pureza. O ritual Paškuwatti de Arzawa, uma outra região da Anatólia hitita, é-nos dado a conhecer por este texto: “O paciente dorme. Ele dirá se viu em sonhos a incarnação da deusa, se ela vem até ele e se deita com ele. Durante três dias, durante os quais eu invocarei a deusa, ele relatará os sonhos que vir, e dirá se a deusa lhe mostra os olhos, ou se a deusa se deita com ele” (KUB 9.27+ iv 1–10).
Desta vez, a pureza do paciente é determinada pelo comportamento da deusa no seu sonho. Trata-se da deusa Uliliyašši: se ela se deitar com ele, então está puro, se apenas lhe mostrar os olhos então não há pureza no paciente. Para os Hititas, existiam assim diferentes graus de pureza, conhecidos precisamente através da interpretação dos sonhos, bem antes de Sigmund Freud está bom de ver. O caso é que o acto sexual de uma deusa com um mortal apenas poderia ser realizado com um homem puro, caso contrário… o mortal apenas lhe veria os olhos. Mas não é pouco privilégio sabendo que se trata de uma deusa! E afinal de contas são sonhos...
Cf. Mouton, Alice, Rêves Hittites, Leiden-Boston: Brill, 2007.
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domingo, 2 de agosto de 2009
Soberania no feminino
Os mais altos lugares de poder no Oriente Antigo não pertenceram apenas a homens. No seio da família real judaica um dos mais altos cargos políticos era detido pela Rainha Mãe, chamada gebirah pelos Hebreus. Entre os Sumérios a congénere desta figura judaica era a SAL.LUGAL GAL e entre os semitas de Ugarit a rabitu. Os Hititas também tinham uma tawananna, termo traduzível por Grande Senhora ou Grande Rainha.
Uma prova da importância desta figura nas cúpulas judaicas do poder vem no nome oficial do rei: o nome de sua mãe, juntamente com o patronímico ou o lugar de origem, acompanhava quase sempre o nome do monarca.
No império hitita, a tawananna, diferentemente do que se passava no domínio judaico, era a mulher do rei em exercício, mas não necessariamente a Rainha Mãe. Se a primeira função da tawananna parece decorrer no âmbito do culto, sabemos que tinha um papel activo tanto nas relações internacionais como na política interna do reino.
A tawananna mantinha o seu poder durante vários reinados consecutivos: a esposa favorita do sucessor do rei com quem a tawananna casara não podia assumir o papel de nova tawananna antes de a sua predecessora morrer ou ser oficialmente afastada. A mulher do rei hitita Supiluliuma I (1370-1342 a.C.), uma nativa da Babilónia, era mesmo chamada Tawananna. O herdeiro de Supiluliuma I, Arnuwanda, outorgou-lhe o título de “Grande Sacerdotisa de Arinna, Deusa do Sol”.
Já o sucessor de Arnuwanda, Mursili II (1340-1310 a.C), quis afastar Tawananna do poder. Para tal acusou-a de ter substituído os rituais hititas por costumes babilónicos e de se ter apropriado de fundos que pertenciam ao culto local. Foi ainda acusada de ter realizado um feitiço mortal sobre uma das esposas reais. Com isto, Mursili II conseguiria afastar Tawananna e de a substituir pela hurrita Danu-hepa, sua mãe (de Mursili). Também Danu-hepa teve um elevado número de funcionários e várias cidades fortificadas sob sua alçada. Manter-se-ia no poder durante três reinados consecutivos.
A extensão do poder deste tipo de figuras femininas – da gebirah, da SAL.LUGAL GAL, da rabitu e da tawananna – era determinada pela envolvência político-estratégica do seu casamento. Ficava logo estabelecido no contrato de casamento que ela teria um estatuto especial – leia-se superior – no interior da polígama casa real. Desde logo porque seria o seu filho a herdar o trono.
Demonstra isto que o poder feminino nem sempre foi exercido na penumbra da casa real. No Oriente Antigo era exercido de forma explícita e oficial. Se adicionarmos a este poder oficial a "magistratura de influência" que uma mãe ou uma esposa podem ter junto de um soberano, dificilmente se concluirá pela existência de um “sexo fraco” no Oriente Antigo. Aliás, basta lembrar Bathsheba - na imagem pintada por Willem Drost em1654 -, primeiramente esposa do guerreiro hitita Uriah que acabaria por casar com o rei israelita David e ser mãe do rei Salomão.
Cf. Spanier, Ktziah, “The northern israelite Queen Mother in the judaen court: Athalia and Abi”, in Meir Lubetski et al. (eds.), Boundaries of the Ancient Near Eastern World – A Tribute to Cyrus H. Gordon, Sheffield: Academic Press, 1998.
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