sexta-feira, 21 de maio de 2010

A altura de Golias

David e Golias em combate
The Metropolitan Museum of Art

Antes da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947, a interpretação do Antigo Testamento estava praticamente limitada ao Texto Massorético, ao Pentateuco Samaritano (ou Torah dos Samaritanos) e à Septuaginta (a versão grega do texto bíblico). Os textos da comunidade essénia de Qumran, encontrados por alguns pastores a Sul de Qumran, viriam permitir o estudo da Bíblia com base em textos anteriores ao período medieval, para além de demonstrarem a superior antiguidade de alguns Livros Bíblicos.

A descoberta dos textos que viriam a ser conhecidos por Manuscritos do Mar Morto parece ter ocorrido quando dois pastores vigiavam os seus rebanhos perto de En Feshka, corria o ano de 1947. Numa das versões desta história, Jum‘a Muhammed Khalil lançou uma pedra para um buraco e ouviu o barulho de um objecto de barro a ser quebrado. Desconcertados, os pastores terão combinado regressar alguns dias depois ao local do acontecimento. Porém, Muhammed Ahmed el-Hamed, o irmão mais novo (que tinha por alcunha “o lobo”), julgando que haviam encontrado ouro, dirigiu-se no dia seguinte para o local e entrou numa das cavernas: descobriu então dez vasos de barro, oito dos quais continham manuscritos. Levando três deles, um dos quais era o Grande Manuscrito de Isaías, mostrou-os aos seus irmãos mais velhos (noutra versão desta história, aos seus primos), que os haveriam de mostrar a antiquários de Belém. Dando-os a conhecer ao mundo, a partir daí a popularidade dos Manuscritos do Mar Morto não mais pararia de crescer.

As razões desta popularidade são muitas, incluindo uma teoria da conspiração inventada por John Allegro por volta de 1950. Segundo este, o Vaticano e a Igreja Católica estariam a filtrar os manuscritos de forma a esconder aqueles que afectassem os dogmas católicos. E ainda nos anos 90 a publicação dos manuscritos dava que falar, visto que só em 1991 foram finalmente publicados os manuscritos da caverna identificada com o número 4, após uma verdadeira batalha pelo livre acesso aos Manuscritos.

Não há um único manuscrito encontrado em Khirbet Qumran que esteja completo, sendo o mais completo precisamente o Grande Manuscrito de Isaías, que contém os 66 capítulos do Livro de Isaías e que apenas tem pequenas secções mutiladas. Os textos são de vários períodos, indo de 250 a.C. ao ano 70 d.C., chegando portanto ao período de Herodes, o Grande. Contudo, segundo Roland de Vaux, o sítio arqueológico de Khirbet Qumran foi ocupado desde o séc. VIII a.C. até  c. 135 d.C., ainda que com interrupções.

Os cerca de 900 manuscritos descobertos em Qumran podem ser divididos em dois grandes grupos: os escritos sectários, que mostram os pontos de vista da seita dos Essénios, os mais prováveis habitantes de Qumran, e os outros textos, cuja maior parte pertence a Livros do Antigo Testamento. Para além de iluminar o modo como o texto bíblico foi transmitido, os Manuscritos do Mar Morto mostram-nos como era o Antigo Testamento antes da sua forma actual.

Veja-se a título de exemplo a história bíblica de David e Golias. Contada no capítulo 17 do Primeiro Livro de Samuel, aparece também recontada nos Manuscritos do Mar Morto. Ao passo que a Bíblia tal qual hoje a conhecemos conta que Golias, o filisteu, tinha uma estatura de seis côvados de altura (mais de 3 metros), um dos manuscritos encontrados em Qumran diz-nos que Golias, o aterrorizador de Saul e das suas tropas, afinal media apenas 2 metros. Os Manuscritos do Mar Morto vieram assim demonstrar que o pequeno e inspirado David teve a vida mais facilitada do que se pensava ao fazer tombar Golias com o rosto por terra. Ainda que, mais metro menos metro, tivesse sido a pontaria a fazer a diferença.

Cf. LIM, Timothy, The Dead Sea Scrolls, A Very Short Introduction, Oxford: University Press, 2005.
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