domingo, 22 de novembro de 2009

De Hermes à oratória




Musa, canta um hino a Hermes, filho de Zeus e de Maia,
senhor de Cilene e da Arcádia rica em rebanhos,
mensageiro dos imortais que traz a sorte, ele que Maia criou,
a ninfa de belos cabelos que por amor se uniu a Zeus, recatada:
pois ela evitou a companhia dos deuses bem-aventurados,
vivendo dentro de uma caverna sombria…


Começa assim o Hino Homérico a Hermes, deus nascido numa caverna situada no monte Cilene, no Sul da Arcádia, ao que parece no quarto dia do mês, de um mês que talvez nunca tenha existido. O nome deste deus grego aparece desde cedo escrito em tabuínhas de Linear B, uma escrita usada pelos falantes de uma língua proto-grega. Parece que o seu nome deriva da palavra herma (ρμα), vocábulo grego que designa um montículo de pedras usado para delimitar um terreno. E “herma”, palavra portuguesa, designa mais ou menos o mesmo.


Como de costume se fazia às crianças, Hermes assim que nasceu viu-se envolvido em faixas e colocado num berço. Mas logo no primeiro dia de vida demonstrou a sua dissimulação e habilidade: de tantas voltas dar no berço conseguiu livrar-se das faixas e fugir. A um deus é permitido fugir com um dia de vida!


Dirigiu-se para a Tessália, onde o seu irmão Apolo apascentava o gado, no tempo em que ainda se dedicava à pastorícia. Aí Hermes, sem mais, roubou vacas, novilhas e um touro a seu irmão, dirigindo-se depois para Pilos, onde se escondeu numa caverna. Não querendo ser seguido, atou ramos às caudas dos animais para apagar o rasto do trajecto; noutras versões calçou os animais com tamancos ou fê-los andar em marcha à ré, para dissimular o sentido da marcha.


Depois de um sacrifício na caverna de Pilos, fugiria para Cilene, onde encontrou uma tartaruga à entrada de uma gruta.  Esvaziando a carapaça da tartaruga e atando-lhe cordas feitas com os intestinos dos animais sacrificados inventou a lira. Seu irmão, que ainda era pastor, ouvira-o tocar; encontrando a lira na gruta de Cilene ficou a tal ponto encantado que deixou os rebanhos para se dedicar à música.


Só a invenção da lira daria suficiente reputação a este astuto deus, mas o seu engenho criaria ainda a siringe, a flauta de Pã. Apolo, decerto já deliciado com os timbres líricos, quis comprar a flauta ao seu irmão. Hermes vendeu-lha, mas não sem antes receber lições de adivinhação, bem como a vara de ouro – o caduceu – que Apolo usara para pastorear o gado. Hermes não dava ponto sem nó.


Encantado com os dons de adivinhação de Hermes, Zeus fez dele seu mensageiro. Seria talvez esta reputação de Hermes que levaria Homero a fazer dele o portador de mensagens cruciais para Ulisses: é ele quem transmite a Calipso a ordem de libertação de Ulisses e de o ajudar a construir uma jangada para poder regressar aos braços de Penélope; é também Hermes quem dá a conhecer a Ulisses a planta mágica que lhe permitirá escapar aos encantamentos de Circe.


Esta arte de mensageiro que Hermes adquiriu reputou-o como bem sucedido comunicador junto de inimigos e estranhos. Seria por esta via que o nome de Hermes daria origem à palavra grega hermeneuein, que significa “interpretar”, recolhida pela língua portuguesa na “hermenêutica”. Interessante facto, ainda que mitológico, é Hermes ser tido como patrono da oratória, talvez porque o orador precise antes de mais de saber interpretar, i.e. de ser hermeneuta.

Cf. Hesiod, the Homeric Hymns and Homerica, Cambridge - Massuchussets - London: Harvard University Press, 1982.
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