quarta-feira, 23 de março de 2011

Jornada no âmbito do Projecto Lexicon

"O projecto, Lexicon – Dicionário de Grego-Português, nasceu da necessidade sentida de um dicionário que seja realmente útil a estudantes e estudiosos da língua, literatura e cultura gregas. Com a qualidade e rigor possíveis, visa servir as exigências de quantos compulsam a língua no exercício do seu labor escolar e académico de leitura, tradução e interpretação; não só para buscar o sentido do vocabulário mais comum, mas também para clarificar o significado mais profundo da terminologia técnica e científica nas diversas as áreas do saber."

PROGRAMA


10:00 – Abertura
10:15 – Anne Thompson Coleman (Universidade de Cambridge, UK), «The Cambridge Greek Lexicon Project: A general survey and the innovations in lexicography introduced»
11:00 – Cristina Abranches Guerreiro (Universidade de Lisboa), «O Dicionário Grego-Português e o seu Público»
11:30 – Intervalo
12:00 – José Pedro Moreira (Universidade de Lisboa), «Agamémnon de Ésquilo: ekpatios (50), dêmioplêthês (129), autotokos (137), histotribês (1443) – um contributo para o Projecto Lexicon: Dicionário de Grego-Português»
12:00 – Maria Celina Fernandes (Universidade de Lisboa), «A Physis no De Iosepho de Fílon de Alexandria»
13:00 – Almoço
15:00 – Jesús Peláez (Universidade de Córdoba, Espanha), «El Diccionario Griego-Español del Nuevo Testamento. Metodologia y Princípios Básicos»
15:30 – Maria José Mendes e Sousa (Universidade de Lisboa), «Expressões e Termos Escatológicos nos Aforismos de Hipócrates»
16:00 – Manuel Alexandre Júnior (Universidade de Lisboa), «Lexemas em Contexto: Rigor Semântico em Lexicografia»
16:45 – Encerramento
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sábado, 12 de março de 2011

Jornada Fílon de Alexandria


Esta Jornada realiza-se no âmbito do Projecto “Fílon de Alexandria na Origens da Cultura Ocidental”; projecto que visa estudar e traduzir a obra deste grande pensador do Judaísmo helenístico, bem como a recepção da mesma na Patrística cristã.
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quinta-feira, 10 de março de 2011

Ciclo de Conferências Arqueologias de Império II


O Centro de História da Faculdade de Letras Universidade de Lisboa, através da sua linha de investigação Mundo Antigo & Memória Global,  organiza o Ciclo de Conferências Arqueologias de Império, no âmbito do seu Seminário Interdisciplinar de História Antiga.


O ciclo consta de três conferências, que decorrerão em três sextas-feiras, entre Novembro de 2010 e Maio de 2011, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e versarão sobre as seguintes temáticas:

- Fórmulas Originárias de Império, no dia 26 de Novembro de 2010;

- Impérios da Era Axial, no dia 18 de Março de 2011;

- Impérios da Globalização, no dia 27 de Maio de 2011.

A entrada é livre.
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Liddell-Scott on-line


The TLG is pleased to announce the release of the Online Liddell-Scott Jones, the premier lexicon for ancient Greek. All lemmata and word forms in the TLG corpus are now linked to a new dictionary page that contains links to LSJ. The lexicon is open to the public. Here.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Propaganda


Pedra de Roseta

Ano 9, Xandikos, dia 4, que corresponde ao mês egípcio Mekhir, dia 18 [=27 de Março de 196 a.C.] no reino do jovem rei que ascendeu ao lugar de seu pai, o senhor da sagrada serpente uraeus cujo poder é grande, que protegeu o Egipto e o tornou próspero, cujo coração é piedoso perante os deuses, aquele que prevalece sobre o inimigo, que enriqueceu a vida do seu povo, senhor dos jubileus como Ptah-Tanen [deus de Mênfis], rei como Ré [o deus solar], senhor das Duas Terras, filho dos deuses que amam o seu pai, que Ptah escolheu e a quem o Sol deu a vitória, imagem viva de Amon, o filho do Sol, Ptolemeu, que vive para sempre, amado de Ptah, o deus manifesto cujo benefício é perfeito [Ptolomeu V Epifâneo Eucaristo]…

Tradução livre da abertura do texto da Pedra de Roseta, um decreto do supremo conselho sacerdotal de Mênfis, acerca das medidas de Ptolomeu V Epifâneo (205-180 a.C.). A Pedra de Roseta, escrita em egípcio hieroglífico, demótico e grego, para além da farta propaganda política, permitiu a Jean-François Champollion, em 1822,  decifrar a escrita hieroglífica, sendo por isso um documento histórico da maior importância. E que diria Champollion se visitasse hoje o Egipto, espantar-se-ia com a renitência de algum recalque faraónico?

Cf. RAY, John, The Rosetta Stone, London: Profile Books, 2007.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sessão comemorativa 20 anos da Revista Cadmo


Sessão de lançamento do número 20 da Revista Cadmo, celebrando os 20 anos de vida desta publicação, no próximo dia 11 de Fevereiro de 2011, pelas 18h00, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Apresentação: Prof. Doutor José Augusto Ramos e Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo.
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Às portas de Jerusalém

Jerusalém, Porta de Damasco

"[...] há uma confusão à volta do termo utilizado pelas civilizações ocidentais, que vem do grego. Em grego, Bíblia é um plural - "os livros". Mas como a terminação "a" é geralmente feminina e singular em latim e nas línguas que dele derivam, passou a pensar-se que aquilo era um livro, e de facto nas versões modernas é apresentado num volume. Só que nunca pretendeu ser um livro, mas um volume que tem dezenas de livros. Diferentes! Portanto, é uma biblioteca no sentido estrito. A Bíblia é uma biblioteca pequena, mas que dá muito que falar."

Da entrevista a Francolino Gonçalves, no Público.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Vontades marinheiras de aproar

Cena de amor num modelo de cama em terracota
Período Babilónio Antigo

“Homem do meu coração, meu amado, o teu encanto é doce, doce como mel. Jovem do meu coração, meu amado, teu encanto é doce, doce como mel.
Tomaste-me, irei de minha livre vontade até ti. Homem, deixa-me fugir contigo – para o quarto. Tomaste-me, irei de minha livre vontade até ti. Jovem, deixa-me fugir contigo – para o quarto.
Homem, deixa-me fazer-te as mais doces coisas. Meu docinho precioso, deixa-me trazer-te mel. Com mel gotejando no quarto gozemos uma e outra vez teu encanto, o doce. Jovem, deixa-me fazer-te as mais doces coisas. Meu docinho precioso, deixa-me trazer-te mel.
Homem, tu foste atraído por mim. Fala à minha mãe e eu entregar-me-ei a ti; fala a meu pai e ele fará de mim um dote. Eu sei onde dar prazer ao teu corpo – dorme, homem, em tua casa até de manhã. Eu sei como trazer deleites a teu coração – dorme, jovem, em tua casa até de manhã.
Já que te apaixonastes por mim, jovem, se me pudesses fazer tuas doçuras…
Meu senhor e deus, meu senhor e anjo da guarda, meu Shu-Suen que alegra o coração de Enlil, se pudesses apenas manejar o doce sítio, se pudesse agarrar o teu sítio que é doce como mel.
Põe tua mão ali, por mim, como cobertura de uma medida. Alarga tua mão ali, por mim, como cobertura de uma taça de madeira.
Balbale de Inana.”

Canção de amor como se fosse cantada por Inana, a deusa suméria do amor. Boa parte das canções de amor sumérias foram compostas por homens, mas escritas em voz feminina. O desejo de Inana dirige-se aqui a Shu-Suen, rei da III Dinastia de Urim.

Cf. BLACK, Jeremy, et al., The Literature of Ancient Sumer, Oxford: University Press, 2004.
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Utopias

Tucídides

“Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio às actividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses, decidimos  as questões públicas por nós mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-las claramente, na crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação.”

Em grego clássico:

"φιλοκαλοῦμέν τε γὰρ μετ᾽ εὐτελείας καὶ φιλοσοφοῦμεν ἄνευ μαλακίας: πλούτῳ τε ἔργου μᾶλλον καιρῷ ἢ λόγου κόμπῳ χρώμεθα, καὶ τὸ πένεσθαι οὐχ ὁμολογεῖν τινὶ αἰσχρόν, ἀλλὰ μὴ διαφεύγειν ἔργῳ αἴσχιον. [2] ἔνι τε τοῖς αὐτοῖς οἰκείων ἅμα καὶ πολιτικῶν ἐπιμέλεια, καὶ ἑτέροις πρὸς ἔργα τετραμμένοις τὰ πολιτικὰ μὴ ἐνδεῶς γνῶναι: μόνοι γὰρ τόν τε μηδὲν τῶνδε μετέχοντα οὐκ ἀπράγμονα, ἀλλ᾽ ἀχρεῖον νομίζομεν, καὶ οἱ αὐτοὶ ἤτοι κρίνομέν γε ἢ ἐνθυμούμεθα ὀρθῶς τὰ πράγματα, οὐ τοὺς λόγους τοῖς ἔργοις βλάβην ἡγούμενοι, ἀλλὰ μὴ προδιδαχθῆναι μᾶλλον λόγῳ πρότερον ἢ ἐπὶ ἃ δεῖ ἔργῳ ἐλθεῖν."

Para que não haja dúvida, trata-se do Péricles de Tucídides sobre a Atenas de há dois mil e quinhentos anos, não é coisa de agora.

N. b.: Texto em português da tradução de Mário da Gama Cury (São Paulo, 1982), a primeira tradução integral para português, directamente do grego clássico, da colossal obra de Tucídides. Surge agora e em boa hora a segunda integral pelas mãos de M. Gabriela P. Granwehr e Raul Rosado Fernandes (Lisboa, 2010).
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ciclo de Conferências Arqueologias de Império



O Centro de História da Faculdade de Letras Universidade de Lisboa, através da sua linha de investigação Mundo Antigo & Memória Global,  organiza o Ciclo de Conferências Arqueologias de Império, no âmbito do seu Seminário Interdisciplinar de História Antiga.

O ciclo consta de três conferências, que decorrerão em três sextas-feiras, entre Novembro de 2010 e Maio de 2011, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e versarão sobre as seguintes temáticas:


- Fórmulas Originárias de Império, no dia 26 de Novembro de 2010;

Impérios da Era Axial, no dia 18 de Março de 2011;

Impérios da Globalização, no dia 27 de Maio de 2011.


A entrada é livre.
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sábado, 13 de novembro de 2010

Ad hoc tempus

Clio, Musa da História,
Carlo Franzoni, mármore, 1819,
National Statuary Hall, Washington

“Vá lá, então, comecemos pelas Musas, aquelas que a Zeus, seu pai, / entoam hinos, alegrando-lhes o espírito imenso, na mansão do Olimpo, /contando-lhe o presente, o futuro e o passado, / em uníssono. Um canto inesgotável escorre-lhes / dos lábios, delicioso. E ilumina-se com um sorriso a morada do pai, / Zeus, senhor do trovão, enquanto a voz cândida das deusas / se eleva, fazendo vibrar o cimo do Olimpo coberto de neve / e as moradas dos Imortais.”

As nove Musas da mitologia grega – Calíope, Clio, Polímnia, Euterpe, Terpsícore, Érato, Melpómene, Talia e Urânia – são  filhas de nove noites de amor de Zeus com Mnemósine, a deusa grega cujo nome significa “Memória”. Filhas da memória, representam também a primazia da Música sobre todas as coisas.

Cf. HESÍODO, Teogonia, Trabalhos e Dias, trad. A. E. Pinheiro e J. R. Ferreira, Lisboa: INCM, 2005.
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domingo, 10 de outubro de 2010

Mais impostos s.f.f.

Réplica de tabuinha neo-assíria com inventário de bens

Na fase da história hitita conhecida como o  período das colónias assírias (sécs. XX-XVIII a.C.), estabeleceu-se um grande número de mercadores assírios na zona nordeste da Anatólia, que então realizavam um lucrativo comércio, por exemplo com margens de 100% no estanho ou mesmo 200% no caso dos têxteis. De qualquer modo, os grandes comerciantes não se coibiam de fugir a impostos e taxas que reputavam desnecessários. 

Uma das formas conhecidas de escapar à tributação consistia em levar as mercadorias por caminhos conhecidos como ḫarran suqinnim, ou seja, “atalhos”, fugindo assim ao controlo de circulação de mercadorias efectuado nas grandes avenidas da época. Um método alternativo, ou complementar, passava por fazer entrar mercadorias nas cidades em pequenas quantidades, frequentemente escondidas debaixo da roupa. Havia até contrabando de mercadorias ilícitas, especialmente exportação de ferro meteorítico, que estava proibida dada a raridade deste metal.

Sobreviveu um registo de um conselho dum comerciante a um sócio acerca dos problemas do contrabando:

“O filho de Irra enviou os seus bens contrabandeados a Pushu-ken, mas os bens contrabandeados foram apanhados e o palácio [ou seja, as autoridades do palácio] capturaram Pushu-ken e puseram-no na prisão. Os guardas são fortes. A rainha enviou mensagens a Luhusaddia, Hurrama, Salahsuwa e ao seu próprio país acerca do contrabando e foram colocados vigias [literalmente “olhos”]. Por favor não contrabandeies nada.”

À parte as duras penas aplicadas aos contrabandistas, frequentemente prisão e confiscação dos bens, é caso para perguntar se este comerciante partilharia daquela ideia chinesa de que “quem prospera não discute impostos” ou se, inversamente, adaptaria este provérbio à sua maneira. O facto é que ele, de forma até bastante educada, roga ao sócio para que “por favor” não contrabandeie. Sem dúvida, um exemplo de empresário.

Cf. BRYCE, Trevor, The Kingdom of the Hittites, Oxford: Oxford University Press, 2005.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Parménides ou Platão?


Excerto do diálogo entre Parménides (recriado por Platão) e Aristóteles (este não o Estagirita), linhas finais do Parménides de Platão (trad. A. Lobo Vilela):

Parménides: "Portanto, se disséssemos, em resumo, que nada existe se o uno não existe, falaríamos com justeza."
Aristóteles: "Com perfeita justeza."
Parménides: "Digamo-lo pois, e acrescentemos que, segundo parece, quer o uno exista, quer não, ele e as outras coisas, relativamente a si mesmos e uns aos outros, são absolutamente tudo e não o são, parecem sê-lo e não o parecem."
Aristóteles: "É perfeitamente exacto".

Em grego clássico:

- οὐκοῦν καὶ  συλλήβδην εἰ εἴποιμεν, ἓν εἰ μὴ ἔστιν, οὐδέν ἐστιν, ὀρθῶς ἂν εἴποιμεν·
- παντάπασι μὲν οὖν.
- εἰρήσθω τοίνυν τοῦτό τε καὶ ὅτι, ὡς ἔοικεν, ἓν εἴτ᾽ ἔστιν εἴτε μὴ ἔστιν, αὐτό τε καὶ τἆλλα καὶ πρὸς αὑτὰ καὶ πρὸς ἄλληλα πάντα πάντως ἐστί τε καὶ οὐκ ἔστι καὶ φαίνεταί τε καὶ οὐ φαίνεται.
- ἀληθέστατα.
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quinta-feira, 29 de julho de 2010

O primeiro egiptólogo

Khaemuaset frente a Ramsés II,
templo de Amenhotep III, em El-Kab

Dentre os mais de cem filhos de Ramsés II (1289-1224 a.C.), como o próprio deixou escrito, um deles haveria de demonstrar um elevado interesse em conhecer o passado do seu país. Khaemuaset, cujo nome significa “o que brilha em Tebas”,  é por isso frequentemente considerado o primeiro egiptólogo antes mesmo deste conceito existir. Designado, aos trinta anos, o Sumo Sacerdote de Ptah, em Mênfis, a carreira eclesiástica haveria de lhe dar tempo para se dedicar ao estudo do Egipto antigo, país que já no seu tempo tinha dois mil anos de história à espera de meditação. Com acesso às melhores bibliotecas do Egipto do seu tempo, em Mênfis e Heliópolis, investigou avidamente o passado egípcio e promoveu a reconstrução de monumentos antigos. Enquanto Ramsés II, um propagandista de primeira água, fazia crescer a sua popularidade, pode imaginar-se Khaemuaset no seu scriptorium ou lendo hieróglifos nas paredes de templos e mastabas, investigando a história do seu país.

Cf. RAY, John, Reflections of Osiris, Lives from Ancient Egypt, Oxford: University Press, 2002.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nihil ebrium

Taça de Nestor
Pitecusas, séc. VIII a.C.

Inscrição na “taça de Nestor”

“De Nestor sou a taça aprazível de beber
Aquele que beber esta taça vazia imediatamente
Um desejo de Afrodite de bela coroa (o) tomará”

A inscrição, uma das mais antigas com caracteres gregos (de influência fenícia), data do séc. VIII a.C. Escrita da direita para a esquerda, à maneira hebraica, foi encontrada num objecto conhecido como a “taça de Nestor”, em Pitecusas (ilha de Ischia, frente a Nápoles). Foi já proposta a associação (não identitária) com a taça de Nestor mencionada na Ilíada (XI, 632-637), o que pode ter resultado de referência literária ou de mera recolecção mitológica a partir de um substrato comum. Na Ilíada, “uma mulher semelhante às deusas” mistura vinho de Pramo e queijo ralado na taça de Nestor, após o que este conta uma longa história a Pátroclo. Mas aquele que beber da taça encontrada em Pitecusas, quando ela estiver vazia, será tomado pelo louco desejo de Afrodite. É pois um estranhíssimo caso em que uma taça vazia inebria mais do que uma cheia de vinho.

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Objectos do passado: o Estandarte de Ur


Estandarte de Ur
2600-2400 a.C.

Encontrado em Ur, no cemitério real desta antiga cidade suméria. Nomearam-no estandarte por se crer que tivesse sido usado no topo de um mastro. A sua função ainda não é conhecida, havendo quem pense tratar-se de uma caixa de ressonância musical. A sua figura actual resulta de uma reconstrução das peças de calcário vermelho e lápis-lazuli. Um dos painéis representa a Guerra, com carros puxados por duplas parelhas de burros que atropelam os inimigos; o painel do lado oposto representa a Paz, através de um banquete acompanhado de música lírica(?) e um cortejo de oferendas para o repasto.

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

A altura de Golias

David e Golias em combate
The Metropolitan Museum of Art

Antes da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947, a interpretação do Antigo Testamento estava praticamente limitada ao Texto Massorético, ao Pentateuco Samaritano (ou Torah dos Samaritanos) e à Septuaginta (a versão grega do texto bíblico). Os textos da comunidade essénia de Qumran, encontrados por alguns pastores a Sul de Qumran, viriam permitir o estudo da Bíblia com base em textos anteriores ao período medieval, para além de demonstrarem a superior antiguidade de alguns Livros Bíblicos.

A descoberta dos textos que viriam a ser conhecidos por Manuscritos do Mar Morto parece ter ocorrido quando dois pastores vigiavam os seus rebanhos perto de En Feshka, corria o ano de 1947. Numa das versões desta história, Jum‘a Muhammed Khalil lançou uma pedra para um buraco e ouviu o barulho de um objecto de barro a ser quebrado. Desconcertados, os pastores terão combinado regressar alguns dias depois ao local do acontecimento. Porém, Muhammed Ahmed el-Hamed, o irmão mais novo (que tinha por alcunha “o lobo”), julgando que haviam encontrado ouro, dirigiu-se no dia seguinte para o local e entrou numa das cavernas: descobriu então dez vasos de barro, oito dos quais continham manuscritos. Levando três deles, um dos quais era o Grande Manuscrito de Isaías, mostrou-os aos seus irmãos mais velhos (noutra versão desta história, aos seus primos), que os haveriam de mostrar a antiquários de Belém. Dando-os a conhecer ao mundo, a partir daí a popularidade dos Manuscritos do Mar Morto não mais pararia de crescer.

As razões desta popularidade são muitas, incluindo uma teoria da conspiração inventada por John Allegro por volta de 1950. Segundo este, o Vaticano e a Igreja Católica estariam a filtrar os manuscritos de forma a esconder aqueles que afectassem os dogmas católicos. E ainda nos anos 90 a publicação dos manuscritos dava que falar, visto que só em 1991 foram finalmente publicados os manuscritos da caverna identificada com o número 4, após uma verdadeira batalha pelo livre acesso aos Manuscritos.

Não há um único manuscrito encontrado em Khirbet Qumran que esteja completo, sendo o mais completo precisamente o Grande Manuscrito de Isaías, que contém os 66 capítulos do Livro de Isaías e que apenas tem pequenas secções mutiladas. Os textos são de vários períodos, indo de 250 a.C. ao ano 70 d.C., chegando portanto ao período de Herodes, o Grande. Contudo, segundo Roland de Vaux, o sítio arqueológico de Khirbet Qumran foi ocupado desde o séc. VIII a.C. até  c. 135 d.C., ainda que com interrupções.

Os cerca de 900 manuscritos descobertos em Qumran podem ser divididos em dois grandes grupos: os escritos sectários, que mostram os pontos de vista da seita dos Essénios, os mais prováveis habitantes de Qumran, e os outros textos, cuja maior parte pertence a Livros do Antigo Testamento. Para além de iluminar o modo como o texto bíblico foi transmitido, os Manuscritos do Mar Morto mostram-nos como era o Antigo Testamento antes da sua forma actual.

Veja-se a título de exemplo a história bíblica de David e Golias. Contada no capítulo 17 do Primeiro Livro de Samuel, aparece também recontada nos Manuscritos do Mar Morto. Ao passo que a Bíblia tal qual hoje a conhecemos conta que Golias, o filisteu, tinha uma estatura de seis côvados de altura (mais de 3 metros), um dos manuscritos encontrados em Qumran diz-nos que Golias, o aterrorizador de Saul e das suas tropas, afinal media apenas 2 metros. Os Manuscritos do Mar Morto vieram assim demonstrar que o pequeno e inspirado David teve a vida mais facilitada do que se pensava ao fazer tombar Golias com o rosto por terra. Ainda que, mais metro menos metro, tivesse sido a pontaria a fazer a diferença.

Cf. LIM, Timothy, The Dead Sea Scrolls, A Very Short Introduction, Oxford: University Press, 2005.
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