domingo, 5 de julho de 2009

O cenário da luta final


O local de Megiddo, vinte milhas a sudoeste da moderna cidade de Haifa, no Próximo Oriente, foi ocupado desde 8000 a.C. até ao séc. IV a.C., tendo grande importância no período 3000-734 a.C.
Em Megiddo, foi encontrado um fragmento em escrita cuneiforme do épico de Gilgamesh , a versão babilónica da narrativa bíblica do Dilúvio. Só por isso teria grande importância.
Parece que o rei Salomão de Israel, 970-931 a.C., reconstruíu as suas fustigadas muralhas, sinal das muitas batalhas que lá ocorreram. Por exemplo, Tutmés III, faraó egípcio do séc. XV a.C., conquistou Meggido juntamente com outras cidades-estado canaanitas. De facto, o local foi de tal modo assolado pela guerra que o autor do Livro do Apocalipse, o último livro da Bíblia, aí colocou em cena a luta final de Deus com as forças do mal. Chamou a esse sítio Armagedon, har megiddōn em hebraico, o "monte de Megiddo" (Ap. 16: 16).

sábado, 4 de julho de 2009

O nascimento do mundo



Nos textos sumérios e acádicos que a tradição nos legou, não há nada que possa ser chamado de "história de criação", no entanto o tema do começo do mundo era comum a Sumérios e Semitas do Médio Oriente Antigo. Em vez da ideia de criação do mundo, operada por um criador supremo, como acontece na tradição bíblica, sumérios e semitas do médio Oriente pensaram um processo natural de desenvolvimento, um princípio interno de evolução, que desembocaria na ordem cósmica, no mundo organizado. Os próprios deuses nasceriam no decurso deste processo. Assim, o estado original do universo era um estado de indiferenciação, consistindo na existência de um único elemento: as águas primordiais, ou o grande fluido cósmico.


Curioso é que, dois milénios mais tarde, Anaximandro (n. 610 a.C), um filósofo grego pré-socrático, tivesse também pensado num princípio cosmológico, numa arquê, semelhante: uma matéria em que os elementos não estão ainda distintos, uma matéria infinita e indeterminada, designada em grego pela palavra ápeiron.


Em ambos os casos, no sumero-acádico e em Anaximandro, o processo de organização do mundo é um processo de diferenciação. Mas talvez seja fundamental a diferença entre ver o nascimento do mundo como processo histórico (na Suméria e na Acádia) e a organização do mundo como processo filosófico (Anaximandro). Para Anaximandro, é como se o mundo nascesse ao mesmo tempo que o conhecemos, conhecê-lo é criá-lo.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Beleza sáfica

Charles Mengin assim imaginou Safo por volta de 1877. A cena reporta-se à mítica história sobre o fim da poetisa de Lesbos, que se teria afogado por amor de Fáon, que é, afinal, uma figura literária de Ovídio nas Heróides. No séc. X, a Suda, uma espécie de léxico cultural bizantino, ainda recolhe esta falsa versão sobre o fim de Safo. Porém, noutra interpretação, esta associação de Safo a Fáon é uma tentativa de a desligar do campo semântico do homoerotismo, quiçá fruto de algum preconceito. Para além da associação da poetisa ao lesbianismo, Safo, a mulher que se sabe que teve uma filha e marido, permanece na nossa memória pela beleza literária, assim:

"Aquele parece-me ser igual aos deuses,
o homem que à tua frente
está sentado e escuta de perto
a tua voz tão suave

e o teu riso maravilhoso. Na verdade isto
põe-me o coração a palpitar no peito.
Pois quando te olho num relance, já não
consigo falar:

a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda. Fico mais verde do que a relva
e tenho a impressão de que por pouco
que não morro."

(trad. de Frederico Lourenço, em Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa: Cotovia, 2006)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O último dia de Marco Aurélio

Este relevo do período 161-180 d.C. mostra o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.) rodeado de soldados e admiradores, possivelmente aquando do seu regresso das vitoriosas campanhas do Danúbio. Saberiam eles, no meio de tanta agitação, que o homem que veneram é o mesmo que disse que "a perfeição moral consiste em passar cada dia como se fosse o último, em evitar a agitação, o torpor e a falsidade"?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A arte escrita do Antigo Egipto



Nesta reconstrução de Ernst Weidenbach (de 1845), o faraó faz uma oferenda ao deus supremo Amon-Ré. Tanto o deus como a figura que o acompanha, atrás, têm na mão direita, não uma chave, mas uma letra egípcia, o ankh, que significa "vida". A coroa de Amon-Ré tem não só o disco solar, i.e. o hieróglifo que significa Rá/Ré, mas também duas penas verticais. Na mentalidade egípcia, dois significa equilíbrio. Pois o Egipto não foi sempre uma realidade dual? Sempre o Alto e o Baixo Egipto, desde 3300 a.C. até aos Ptolomeus. E não é que a coroa da tal figura feminina que está atrás de Amon-Ré - na verdade a seu lado - significa também Alto e Baixo Egipto. Nada é insignificante na arte escrita dos Antigos Egípcios.
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terça-feira, 30 de junho de 2009

Relembrando o mestre de Eleia


Parménides, filósofo grego do séc. V a.C, ficou conhecido pelas dificuldades que nos deixou em matéria de interpretação dos seus textos. A sua concepção de Ser iria ter continuidade na Teoria das Ideias de Platão. Uma famosa frase de Parménides é esta:
A tradução mais próxima do original é: "...pois é o mesmo pensar e ser". A sua interpretação é problemática: será mais lícito pensar que Parménides quisesse dizer que não se pode pensar sem atribuir algum ser ao pensado, ou concluir que tudo aquilo que é é pensável?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Gudea e as mulheres


Estatueta de Gudea, ensi ("governador") de Lagash, no Sul da Mesopotâmia. Viveu no séc. XXII a.C.. Terá sido um governador pacífico que concedeu às mulheres o direito de possuirem terras. Só por isso valeu a pena ser governador. É notável que o tenha feito há quarenta e dois séculos. Talvez pudesse inspirar uns ahmadinejads que andam por aí...

Altamira


Um clássico absoluto, já com 18500 anos. A gruta de Altamira mostra-nos pinturas do Paleolítico Superior, representando animais selvagens e mãos humanas. Na Espanha cantábrica, perto de Santillana del Mar, a 30 km de Santander. Disse Picasso que "depois de Altamira, tudo é decadência". Concorde-se ou não.

Para que serve um blog

Neste sítio poderá encontrar textos e imagens relacionados com o mundo antigo e com a filosofia desse mundo, que de certo modo é ainda o nosso. A ideia é fazer uma viagem, não por si, mas pelo seu resultado. Não há pretensões de originalidade, quando muito de divulgação com o mínimo de erros possível. As ligações a outros sítios reenviam para conteúdos e informações que o autor deste blog não dá como completamente correctas, mas que são locais que algum interesse terão nem que seja como introdução aos tópicos relacionados com os respectivos loci.